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(Source: pickypicnic, via xxchanouxx)

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24/06/17

o campo dos sentidos é maior que o campo da linguagem, desde o momento em que os sentidos são a causa fundadora da linguagem, essa que tenta expressar toda a emoção e toda comunicação sobre o que sentimos do que existe dentro e fora do que chamamos de “eu”.

a linguagem deve existir em segundo plano aos sentimentos e em sua função, pois invertida essa máxima toda linguagem se torna vazia de sentido e transforma-se em simulação. como acontece com a pessoa que está saciada de sua sede e mesmo assim usa a linguagem para dizer sentir a necessidade de ingerir líquidos.

a palavra existe como expressão de sentimentos reais, e de preferência, para expressá-los de forma simultânea ao momento em que acontecem, por depois a percepção ser alterada pela memória e os sentimentos se tornarem movimentados pelo tempo e não mais terem a pureza da centelha real.

a ressonância do sentimento torna a linguagem intensificada, e assim ainda exprime seu sentido real, porém aumentado pela sua concentração no tempo.

a ressonância da palavra torna o sentimento inócuo, vazio, como uma força que toma o sentimento de fora pra dentro, coagindo-o a sentir-se conforme a linguagem e não conforme si mesmo.

o sentimento é individual, pessoal, e vem de diversas partes da existência, internas e externas; enquanto a linguagem é coletiva em seu uso e em sua formação, dado o fato de que a intenção principal é comunicar com o externo, mesmo que após sua invenção todo sentimento busque se soltar de si mesmo através de seu extravasamento comunicado.

como será que se sentiam antes de existir um “como” ou um “sentir”?

o próprio sentir, como conhecemos e significamos, vem da linguagem, porém a linguagem vem do que chamamos de sentir, do que tentamos expressar de significado nesse sentimento.

a linguagem corrompe o sentir e o transforma em linguagem, enquanto o sentir é mudo, a linguagem simula sua expressão como real e transforma o que existia antes no que vem a existir depois da linguagem.

a linguagem é o som da existência, enquanto o sentir é a existência o som.

pouco adianta dizer como nos sentimos enquanto a linguagem não alcança sua meta e continuamos presos em nossas perspectivas dentro da linguagem.

a partir do momento em que expressamos o sentir através da linguagem, o sentir se transforma em palavra, a palavra se torna o sentir do outro desde seu próprio entendimento e além da intenção do sentidor em expressá-lo.

o sentir é expressado no sentir por si mesmo; o sentir é uma autoexpressão interna, uma forma de linguagem própria de cada um de nós.

é muito improvável que uma palavra seja capaz de realmente transmitir o não-dizível, o que não há palavras para descrever, o individual.

impossível saber se sentimos algo que nunca foi sentido antes enquanto a palavra apenas classifica em termos amplos as sutilezas e nuances dos sentimentos.

o que ainda podemos analisar é a relação entre “sentir” e “sentido”, em sua linguagem e conotações; por exemplo, o sentir se torna o sentido desde o momento em que confiamos na nossa própria expressão do que nos é apresentado pelas emoções e seguimos aquela sensação como posição vetorial das decisões subsequentes desde o imediato a partir do momento em que somos apresentados à ela.

enquanto tentamos buscar validação de nossos sentimentos no outro através da linguagem, nos perdemos do nosso próprio, único e individual sentir; como se toda luz, desde a penumbra até a iluminação solar completa, tivesse o mesmo nome.

o sentir ultrapassa a capacidade da linguagem de categorizar suas sutilezas pelo nosso próprio processamento psicossomático através do tempo.

o sentimento nasce, cresce, se reproduz e morre, como toda vida que conhecemos; ele nasce de um pensamento sobre uma perspectiva, cresce se intensificando em nosso processamento mental a respeito, se reproduz em ações e sentidos e morre transformado no sentimento subsequente, que ocupa o tempo-espaço do sentir no nosso próprio sentimento, enquanto o que a linguagem exibe é o “feliz” ou “triste”, ocultando as fases de cada sentimento a cada momento, e sua formação através da transformação das memórias e perspectivas pelas emoções.

a incapacidade da linguagem de expressar o real sentir é o que gera todo desentendimento e frustração da existência; a incapacidade de se comunicar o que sentimos e nos conectarmos realmente com o outro, de realmente reconhecermos a própria sombra através da linguagem e conseguir processar - em forma de razão - até chegar num real denominador comum entre sentires e espelhos.

a frustração da linguagem ser incapaz de expressar esse sentimento causa um sentimento inerente à existência em uma realidade criada por um fractal de palavras que não significam sentimentos reais, mas apenas simulacros que representam a existência das emoções de uma forma paliativa, que apenas as citam como pequenos adereços à nossa real intenção com a linguagem, significando o segundo plano dos sentidos intencionado pela linguagem - paradoxalmente.

o que temos realmente ao nosso alcance para solucionar este problema é a própria anulação da linguagem racional no que diz respeito aos sentimentos, causando os sentimentos serem expressados por sua própria maneira sentida irracionalmente, livremente, sem discriminação moral ou ética, enquanto que respeitando os sentimentos alheios; o que se torna impossível na prática por razões óbvias: os sentimentos são inúmeros em quantidade - considerando, na existência, a diversidade além dos cálculos - e no contexto em que nos encontramos sentindo; o sentir causa atrito quando em relação ao sentir contrário do outro em questão na comunicação; ou até dentro de nós mesmos, quando o sentir se choca com a linguagem e nos arremessa num poço de dúvida e inércia, seja ela pela linguagem ou diretamente pelo sentir… da forma que for possível.

estamos condenados a sentir dentro da nossa própria perspectiva sem real atual capacidade de conexão com o outro através da razão, chegando - através do uso da linguagem - à conclusões e convenções sobre assuntos superficiais, que dizem respeito ao visível e ao criado artificialmente através da tecnologia e da civilização enquanto o real sentir ainda encontra-se submerso em angústia, aguardando o alcance da linguagem, buscando formas e meios de sair de si mesmo, atirados em direção ao que se encontra fora.

ainda me sinto ambíguo à respeito do que sinto sobre a intenção na criação da linguagem, sobre sua capacidade e sobre nossa expectativa de expressar o que realmente importa e que se torna praticamente descartável durante esse meio de comunicação.

alguém poderia dizer que a solução seria calar-se, mas então chegaríamos ainda mais longe, pois mesmo ainda não sendo capaz e tendo a dual qualidade em sua intenção de formação, a linguagem é o único meio desenvolvido até hoje em que nos sentimos (ironicamente) entendidos (quando não existe intimidade - cuja é criada através de laços invisíveis e indizíveis, por momentos e sentimentos expressados apenas na forma de existir e sentir, quase como uma predestinação ou milagre, muito além e muito antes da linguagem - apesar de todos nossos esforços), mesmo que de certa forma, por nós mesmos e pelo outro; é a forma que encontramos para organizar nossos pensamentos e nossas memórias - apesar das memórias serem armazenadas no sentir -, é como nos aproximamos, mesmo que ainda muito longe de como deveríamos estar.

esse paradoxo é o nó da linguagem, do significado e da comunicação.

sinto necessidade de uma forma de aproximação além do que se pode expressar através dos meios, a priori da formulação da ideia, da fagulha que cria a intenção do pensamento. a aproximação através do puro sentimento e conexão real com o externo.

o sentir é como temos a experiência de nos emocionar, mas a emoção “casual” vem da interpretação da linguagem; a emoção causada em nosso profundo do ser é indizível.

a emoção que sentimos quando algo real - algo além da comunicação por palavras - nos acomete é indescritível através da linguagem.

o sentir do olhar é real, mas onde encontramos palavras para traduzir o brilho único em cada olhar, em cada “frame” de cada observância de cada momento de cada vida que existe ou já existiu? onde podemos encostar na linguagem que exprime o que realmente queremos, o que nos alivia a ansiedade?

através da linguagem apenas carregamos crenças; ideais; simulações; percepções criadas pelo significado moldado pelo coletivo; uma forma de média do sentimento conhecido geral; uma descrição das consequências do sentir no meio externo é suficiente para uma análise da linguagem sobre a metaexistência daquela emoção dentro do sentidor original, assim como seu julgamento.

a injustiça acomete o sentir constantemente enquanto o mesmo é analisado através da linguagem em características comparadas no incomparável.

a vida existe apenas além e antes da linguagem; enquanto linguagem, a vida existe apenas à margem da simulação de uma intenção, uma imagem holográfica do que seria a real intenção, um invólucro cercando de palavras o real significado da emoção que tentamos expressar através de um texto, discurso ou argumento.

tudo que escrevi aqui ainda não me deixa sentir que seja nem uma parcela minimamente comparável ao total necessário de expressão para a real inteligibilidade, e mesmo assim ainda sinto que poderia alcançar o sentimento do outro através da linguagem.

a linguagem nos segrega desde sua própria existência, nos transforma em semelhantes apenas para nos confundir em desentendimentos coloquiais onde percebemos nossas diferenças irremediáveis - como a linguagem faz parecer: uma estranheza - considerando sua própria definição como norma que deve ser respeitada como autoridade.

a linguagem é o maior governo, o maior sistema, o maior controle populacional existente.

vemos um mundo cada vez mais afastado entre si, enquanto uns degladiam outros por ideais e pontos de vista, onde o certo e o errado existem através de suas definições pela linguagem e não por como nos sentimos sobre, além da moral e ética criadas pela linguagem.

ainda há muito o que aprender sobre como nos comunicamos e sobre como deveríamos nos comunicar para existirmos em maior harmonia em nós mesmos, com o outro e com o mundo.

enquanto isso, temos a definição de empatia para causar a ansiedade máxima, a busca sisífica pelo significado do outro, sendo o significante muitas das vezes, sem saber ao certo, pois separações culturais e vivenciais são criadas em palavras.

palavras são ângulos vazios, frios de sentimentos, cheias de intenção que nunca alcançam o objetivo real - considerando a intenção da comunicação da verdade - enquanto ainda somos bombardeados constantemente por informações mal intencionadas, que nos levam a interpretar de forma equívoca fatos reais, ou que iludem a realidade a ponto de criar bifurcações apenas na linguagem, ou ainda em sua omissão - o maior absurdo.

qual seria o interesse em omitir o sentimento se a linguagem nunca tivesse existido?

o sentimento é o que nos move, o que nos faz viver, o que nos mostra que estamos vivos, e o que temos para comemorar essa experiência é algo vazio de significado equivalente.

robôs são constructos puramente de linguagem e ideais, ao contrário da natureza humana.

a natureza humana demanda expressão, demanda reação real, exige uma resposta à um impulso primordial, emana constantemente uma necessidade de interação e conexão com o externo, que por sua vez, é apenas visto dessa forma pela linguagem.

poesia é o meio que o sentir achou de ser em meio as palavras; a arte, que de forma geral, tenta se aproximar da expressão mais pura do ser e do sentir.

a música, que, em pura vibração, transforma o sentir em pulsos perceptíveis pelo outro, é o melhor meio que consegui achar para a expressão do sentir e do existir em sua metafísica, porém, ainda assim, ainda existe um hiato entre o que toca a intenção da transmissão e a aceitação do interlocutor e que permeia toda a comunicação; ainda assim, a intenção de querer entender, o sentimento da vontade de se aproximar em retorno, ultrapassa toda e qualquer dificuldade de comunicação, toda distância na linguagem é atravessada pela ponte do querer.

onde o querer existe, o sentir acompanha sem necessidade de linguagem, onde o sujeito que causa o impulso tem vontade equiparável de causar o entendimento da reposta do outro ao mesmo impulso, em si mesmo, assim como à quem é direcionada a linguagem, até à harmonia, além dos limites do tempo.

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do jeito que a vida quer

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Farelos
Lucas Côrtes, 2016

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Lucas Côrtes, 2016

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Lucas Côrtes, 2017

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Lucas Côrtes, 2017

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Lucas Côrtes, 2017

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(Source: miamivice88, via mamemomonga)

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